terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Modelos x Atores

Desde criança sou fã de novelas. Novelas brasileiras, bem entendido. Noveleiro confesso, sou de uma geração que cresceu assistindo aos teledramas da Rede Globo. Minha mais remota lembrança de uma novela fica entre o realismo fantástico de Saramandaia com seus personagens bizarros e O Bem Amado com sua feroz e, talvez inédita até então, crítica política. Em seguida veio Dancin Days, A Gata Comeu, Roque Santeiro, Vale Tudo, O Dono do Mundo, Laços de Família e Mulheres Apaixonada, entre outras. Mas, depois de 20 anos de adicção, tendo percorrido de Janete Clair e Dias Gomes a Silvio de Abreu e Manoel Carlos eu simplesmente deixei de acompanhar as novelas por motivos profissionais. Foi durante o início de Celebridades. Depois disso nunca mais acompanhei nenhuma, embora continuasse me informando sobre seus temas, audiências e elencos.

Hoje pela manhã, enquanto me arrumava para o trabalho, assisti a uma entrevista de Ana Maria Braga com o citado autor, Silvio de Abreu. Tudo bem, eu confesso: também gosto de Ana Maria Braga. Pelo menos o seu programa “feminino”, ainda que com algumas falhas e exageros característicos, não trata a mulher do século 21 como uma deficiente mental. Mas isso é outro assunto. Naquela curta entrevista, Silvio discorria sobre as mudanças sofridas pela teledramaturgia ao longo das décadas, comparando estilos de textos, de interpretação e dos atores envolvidos. Com muita elegância e objetividade ele conseguiu comparar os períodos sem julgar qual deles foi o melhor, já que todos refletiram o tempo em que existiram. Então saí para trabalhar e fiquei com esse assunto na cabeça.

A teledramaturgia brasileira já ocupa um espaço histórico nas artes deste planeta. Foi e ainda será tema de estudos e teses sócio-culturais pelas faculdades pelo Brasil. O assunto é tão vasto e profundo quanto complexo. Criamos um estilo tão próprio e com um nível tão elevado que se tornou modelo para muitos países que consomem nosso produto com avidez. Através das novelas, mais do que com qualquer outro produto, exportamos nossa cultura e divulgamos nosso estilo de vida. Exatamente como os americanos fazem há quase um século com seu cinema e, mais recentemente, com suas séries. Mas um fato inegável vem aos poucos transparecendo e tirando o sono de muitos profissionais do ramo. Hoje as novelas já não ocupam em nossas vidas o mesmo espaço de há dez anos e isso tem se refletido nos números do ibope. E por quê? Eventualmente aqui ou ali encontramos algum analista apontando um ou outro motivo deste desinteresse. Mas como disse, a questão é complexa e é difícil perceber todos os pontos relevantes. Acredito que, por ser um fenômeno profundamente enraizado em nossa sociedade, as novelas são diretamente afetadas por quaisquer mudanças que naquela ocorram, por mais superficiais que possam parecer. Silvio apontou algumas destas mudanças, como por exemplo, o tipo de ator que se tem hoje em dia.

Até a década de 50, antes do surgimento da televisão, a grande estrela dos lares era o rádio. Nele nasceu a primeira “dramaturgia de massa”. Era a primeira vez na história que uma obra deste tipo ficava disponível e ao alcance de um botão de uma caixinha de madeira na casa de milhares de pessoas. Antes disso a dramaturgia era algo que exigia um expectador ativo, que precisava se arrumar, sair de casa e pagar um ingresso para assistir a uma peça de teatro numa casa com uma lotação específica e que raramente ultrapassava 200 lugares. Com o rádio foi criado o expectador passivo, que se sentava no sofá girava um botão ali estava o teatro instalado em sua sala. Mas a novela de rádio nada mais era do que um teatro feito dentro de um estúdio, geralmente na presença de uma pequena platéia e, portanto interpretado por atores de teatro, auxiliados por competentes e criativos sonoplastas encarregados de criar toda a ambientação que ajudasse o ouvinte a se envolver com a trama.

Então nasceu a televisão e logo alguém teve a idéia de transportar a novela de rádio, um grande sucesso de audiência, para aquele novo meio de comunicação de massa. E onde conseguir os profissionais para esta nova dramaturgia? Claro que eram aqueles mesmos atores todos com formação teatral e experiência d sobra para encarar uma televisão ainda feita ao vivo, inclusive nos comerciais. E não precisa ser um estudioso para perceber que o estilo de interpretação do teatro é completamente diferente da televisão. O teatro é mais livre mais permissível a licenças de todos os tipos. No teatro um jovem pode interpretar um idoso e vice-versa. No teatro a voz é o grande instrumento do ator. A televisão disponibilizou outras ferramentas para o ator. Existem os planos, os closes, as maquiagens e mais recentemente os efeitos especiais, as trilhas sonoras elaboradas e, depois da invenção do videotape, a chance de fazer de novo.

Ao assistir a uma novela da década de 50 ou 60, percebe-se claramente que o estilo de interpretar dos atores remete ao teatro. Até porque os textos eram teatrais, menos dinâmicos do que hoje. Mas era aquilo que a sociedade da época consumia com gosto. Ao longo dos anos as novelas forma refletindo as mudanças desta sociedade e, paralelamente a isso, com o amadurecimento da estrutura televisiva, alguns atores começaram a ser criados diretamente naquele novo meio. Alguns migraram em pouco tempo de volta para o berço original da dramaturgia e mergulharam também no teatro. Mas houve quem se sentisse tão à vontade naquele novo meio, tão profundamente conhecedor daquela mecânica, que simplesmente se bastou na televisão. E sem que isso significasse ser um ator menor ou com menos recursos dramáticos. Estão aí Regina Duarte e Glória Pires para provar isso. E elas conviveram e convivem em perfeita harmonia com os grandes atores do teatro como Fernanda Montenegro ou Lima Duarte, experientes atores de rádio e teatro.

Chegamos aos anos 90 e a estética passou a ser uma preocupação daqueles que produziam televisão. Essa nova ordem se refletiu em todos os programas, dos telejornais às novelas. Claro que havia, como sempre haverá, espaço para o talento verdadeiro, o dom. Mas também passou a haver a necessidade do belo e do harmonioso no vídeo. A televisão é feita em closes, ou no mínimo em plano americano (o busto dos telejornais). E um rosto bonito agrada bastante. A qualidade da imagem já era excelente e os aparelhos de TV ficavam cada vez maiores e junto com eles aumentava o senso estético da sociedade. A geração saúde havia amadurecido nos anos 80 e nos anos 90 as top models começavam a ditar o que era in e o que era out. Nesta época Valéria Monteiro e Carolina Ferraz assumiram posição de destaque como apresentadoras de telejornais. E nessa época os modelos começaram a migrar para a teledramaturgia. Homens e mulheres famosos por sua beleza e elegância nas passarelas ou em estúdios fotográficos surgiam discretamente nas produções da televisão. Alguns com talento, outros nem tanto, alguns esforçados e dedicados em aprender, outros se apoiando unicamente em seus belos rostos, mas estavam ali, ocupando seus espaços e batalhando por reconhecimento.

No Brasil criou-se um preconceito que não é compartilhado por nenhum outro grande centro produtor de cultura, e que a custo de muita crítica vem mudando. Aqui o artista precisa escolher um ramo das artes para seguir e nele se especializar para ser considerado bom. O ator de comédia não sabe fazer drama e vice-versa. O ator não pode dançar. E, preconceito maior, o ator não pode cantar. Em outros lugares, como Estados Unidos e França existe apenas o conceito de artista. Aquele que faz arte. Ele representa, dança, canta e ainda faz acrobacia. E isso é ótimo, o artista é conceituado como completo. O que seria da Broadway sem os artistas completos. Um dos maiores exemplos de artista não nato talvez seja Frank Sinatra. Começou a cantar por pura vontade, teve apoio da máfia, se esforçou, aprendeu, migrou para o cinema onde interpretou e dançou e se tornou um mito. Sinatra talvez não tenha sido agraciado de berço com o talento de um Cole Porter ou Ray Charles. Tampouco nasceu uma estrela como Judy Garland. Mas batalhou, se esforçou, aprendeu e escreveu seu nome na história a ponto de ninguém questionar seu talento.

Por aqui ainda sobrevive o preconceito, principalmente na TV e mais ainda com os modelos atores. Existe gente pouco talentosa na TV? Óbvio que sim e só assistir a qualquer canal para encontrar os exemplos. Falta de talento não é privilégio de modelos. Só que a televisão tem uma mecanismo natural de seleção de talentos e aqueles que nada tem a oferecer para as artes vão tombando pelo caminho. A novelinha “Malhação” está aí se arrastando para provar isso. Uma peneira com mais de dez anos, que já rendeu muitos talentos para a Rede Globo e que hoje mal se sustenta em seu elenco. Alguém se lembra de quando Reynaldo Gianechinni apareceu na TV? Choveu crítica em cima do modelo, o acusaram de ser protegido por Marília Gabriela, de ter feito teste do sofá por sua suposta homossexualidade e outros tantos absurdos. Hoje ninguém questiona seu talento. Alguém dirá: “Ah, mas ele nunca será um Paulo Autran ou um Tarcísio Meira!”. E eu digo “Que bom!”. Porque o dia que a cultura for feita de clones e não de criativa diversidade, ela simplesmente acabou. Pra não citar o caso mais recente de Grazi Massafera que teve que quebrar três estigmas por ser loura, ex-miss e – pecado mortal – ex-BBB, para ser reconhecida como atriz iniciante e ainda assim é caçada pelos críticos.

Por coincidência ou não, justamente neste período, as novelas entraram em crise, com audiências em queda, ainda que seus números continuassem muito acima dos da concorrência. A Rede Globo estava acostumada com índices acima de 40 para suas novelas e qualquer coisa próxima de 35 acendia a luz amarela e gerava memorandos para um monte de gente. Talvez tenha faltado aos estudiosos analisar o motivo desta mudança nos números em função de uma profunda mudança social que ocorreu a partir dos anos 90. Alguém já imaginou o motivo da novela dita “das 8” ter seu horário deslocado pouco a pouco ao longo da década para se tornar a novela “das 9”? O motivo me parece claro como água. A novela sempre foi um produto feito para a dona-de-casa. Seus temas românticos, seus dramas familiares, seus amores proibidos sempre foram direcionados para aquela mulher que estava em casa e, entre preparar o jantar e esperar o marido chegar, se distraía com a novela. Só que, a partir dos anos 90, este tipo de mulher foi entrando em extinção. A dona-de-casa, por razões econômicas passou a trabalhar, algumas vezes mais que o marido e, não raramente, se tornava a dona da casa. Ela também estava chegando tarde e cansada do trabalho para ainda preparar um jantar, cuidar de filhos e arrumar uma casa. Oito da noite ela ainda estava atarefada e sem tempo para assistir à novela. Jogar a programação para a frente foi uma tentativa de recuperar esta expectadora e por algum tempo isso funcionou. E mais. Como agora esposa e marido estariam juntos em frente à TV, houve também uma alteração nos temas e nos ritmos da trama, de modo que esta fosse interessante para todos.

Por coincidência, outro fenômeno chegou ao Brasil nesta época e este pode ter exercido uma influência muito maior do que se poderia imaginar: a TV por assinatura. Inicialmente a TV à cabo foi um fenômeno de elite como toda novidade tecnológica por aqui. Mas assim como muitas outras, em pouco tempo ela foi se difundindo, ainda que por meios ilegais, e hoje poucas são os bairros, por mais pobres que sejam, que não tem a sua TV à cabo. Essa facilidade de acesso a outros canais e a enorme diversidade deles, acabou por roubar boa parte da audiência dos canais abertos, incluindo a (quase) inabalável Rede Globo.

Só o futuro dirá que danos essas mudanças poderão causar ao nosso maior produto cultural de exportação. Alguns dizem que ela acabará. Outros que ela apenas passará por outras reformulações para se adaptar aos novos tempos. Eu me arrisco a dizer que a novela, assim como o carnaval e o futebol, são imortais em nossa cultura. Ambos passaram e passarão por mudanças, altos e baixos, renascimentos, mas sempre estarão presentes por serem parte de nossa identidade. Qualquer especulação sobre o assunto não passará disso. Uma mera suposição. O cinema nacional foi declarado morto por vários estudiosos, com direito a nota fúnebre e tudo. Mas um dia uma atriz que nem era de primeira grandeza achou que estas previsões estavam erradas, captou recursos e fez Carlota Joaquina. Naquele momento, mesmo sem saber, acreditando apenas em si mesma, Carla Camuratti ressuscitou o cinema nacional e abriu caminho para fazer dele algo que hoje é respeitado internacionalmente. O fato é que, assim como no futebol e no carnaval, o talento brasileiro para a dramaturgia sempre vai existir. Bons autores e atores vão continuar nascendo. Cabe a TV encontrar o melhor meio de aproveitar estes talentos. E ela vai encontrar, como sempre encontrou.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Nick Coppola

Ontem estava praticando um dos meus esportes favoritos, que para informação de todos é trocar de canal, quando me deparei com o logo da Tri-Star anunciando o começo de um filme. Era As Torres Gêmeas e decidi assistir. Desde que o filme foi lançado eu imaginava que ele ficaria bem na minha coleção sobre o 11 de Setembro, que inclui os documentários 9/11 e Fahrenheit, além do filme “United 1267” (sei lá o número da porra do vôo!). Eu estava sem sono mesmo, então deitei e relaxei.
Tudo bem, o filme é com o meu "ídolo maior", o aclamado(?!) Nick Coppola. Ainda bem que ele mudou de nome artístico, se bem que o antigo combinava mais com seu estilo cafona de atuar. Mas o filme é o assunto então vamos a ele. Não é ruim, embora muito limitado. Você conhece a história então eu posso e
ntrar em detalhes sem estragar futuras surpresas caso resolva assistir depois – por sua conta e risco. Tudo gira em torno de uma delegacia portuária de NY a qual pertencem os dois protagonistas. Nick é o sargento e um latino é seu comandado. Ambos ficam soterrados depois que as torres desabam porque Nick resolve organizar um pequeno grupo de 6 homens para subir pelas torres quando elas ainda estão em chamas. Porque Nick faz isso? Porque Nick estivera envolvido no resgate das pessoas no atentado de 93 no mesmo WTC, havia organizado planos de evacuação e conhecia todos os atalhos dos 5 prédios principais do complexo. Nada mais natural. Mas por isso mesmo é que achei o filme limitado. Concentra-se demais inicialmente numa delegacia, depois num grupo de policiais e mais adiante em apenas dois, numa história onde centenas de profissionais estiveram envolvidos. É claro, o filme é sobre eles, mas em vários momentos fica parecendo que aqueles 6 policiais resolveram bancar os X-Men e salvar a América. Tudo bem, estou sendo exagerado.
O roteiro não é ruim, vai logo ao assunto depois de uma breve apresentação dos personagens principais e suas famílias, eles entram, as torres caem e pronto. Não se perde muito tempo mostrando aviões explodindo ou qualquer outra cena que já foi mais do que desgastada pela imprensa. Todo mundo sabe o que aconteceu e como aconteceu porque todos estavam assistindo ao vivo em 2001. O problema começa quando os personagens estão embaixo dos escombros. O que a princípio poderia ser uma vantagem, já que com uma viga de aço e concreto sobre o peito fica muito difícil falar, nosso querido Nick teria suas falas reduzidas em muito e teríamos apenas que suportar suas caras e bocas de sofrimento. Mas como duas pessoas soterradas poderiam fazer o filme ser relativamente cansativo – até porque o resgate levou quase 24 horas – eles optaram na montagem por realizar mini-flashbacks das vidas dos policiais. É aí que o filme toma o rumo de dramalhão, embora um drama real, onde se acompanha o desgaste da família, os problemas pessoais dos policiais e a dura realidade do trabalhador de classe média americano. Finalmente os dois são resgatados e tudo termina bem. Fim.
Eu continuava sem sono e fiquei pensando sobre o filme. Entre mil coisas pensadas, uma me fez parar e rir: eu finalmente tinha entendido o Nick. Incrível como depois de tantos anos criticando e fazendo piada em cima dele eu finalmente pude compreendê-lo. E você não imagina a conclusão que tirei depois de muito refletir. Acho que ninguém jamais pensou nisso. Sempre achei que Nick era um péssimo ator, que era careteiro – e por isso seu único bom papel havia sido em Face Off – e que não entendíamos como e porque Hollywood de certa forma gostava dele. Pois eu vou revelar esse mistério. Nick é chato. É isso mesmo, Nick é um cara chato pra cacete. No sentido de enfadonho, maçante. Pra usar a palavra que melhor define na língua do próprio Nick: boring. Reflita comigo e relembre alguns de seus filmes, sempre colocando de lado o excelente Face Off que é uma óbvia exceção. Jogue fora os preconceitos e reconstrua sua opinião a partir de meus argumentos.
Nick convence em seus papéis. Você acredita nele, ele entra no personagem. Em Cidade dos Anjos, por exemplo. Nick é um anjo e nos convence que é. Olha docemente como um e ao mesmo tempo nos passa o drama interno que lhe corrói. É possível sentir o amor verdadeiro que ele tem pela Meg. Você não duvida que ele é um anjo em conflito. Mas ele é um anjo chato. Insuportável. O outro anjo, melhor amigo dele, perde a paciência em vários momentos. Quer outro exemplo? O filme Um Homem de Família. Nick vive com plenitude o papel de um executivo frio e insensível que se vê transportado para outra realidade, numa família calorosa onde ele inicialmente se sente um estranho e depois se encanta com o amor que o cerca. Mas tanto o executivo como o marido de classe média são extremamente chatos. Pense bem nisso. Um outro exemplo, para você não me acusar de estar analisando apenas os papéis dramáticos. Em A Rocha, ação pura, Nick é um policial de escritório. Mais precisamente de laboratório forense. Não pegava em armas desde a academia e se vê obrigado a partir para a ação. Lembra-se como ele era tratado por todos? Ele era colocado de lado, motivo de piada pelas costas. Era o cara chato do departamento. Ele convence como o policial fora do ninho. O cara errado no lugar errado. Você sente nele o drama de ter que enfrentar seus medos e superar os obstáculos. Só que ele é chato. Quer mais um filme de ação? Que tal Conair? Nick é um prisioneiro que está a caminho da liberdade e entra num avião com os mais variados tipos de psicopatas. Todos os bandidos são interessantes, por sua violência ou personalidades. Nick é o único chato. Nenhum dos presentes no vôo, policiais ou bandidos, vai com a cara dele. E quando todos trabalham num plano para escapar, Nick é o único a tentar atrapalhar.
Em As Torres Gêmeas ele novamente vive um policial, um sargento experiente em atentados, respeitado pelo seu conhecimento. Mas é claramente um policial chato. O cara que todo mundo ouve no departamento, segue suas ordens e até se oferece voluntariamente para a missão suicida que ele propõe. Ninguém duvida da capacidade dele. Nem o espectador. Mas ninguém tem dúvida de que ele é um cara chato pra cacete. Até nos momentos de flashback em família, percebe-se que ele é um marido chato, um pai chato. No final do filme, quando o latino é resgatado e Nick ainda fica preso por mais algumas horas, já no limite de suas forças, você se percebe torcendo para que ele não resista e morra. Ou pelo menos você não se importará caso ele morra, afinal o latino gente boa já foi salvo. Se você prestar bastante atenção na cena em que Nick sai do buraco, perceberá que até os policias e paramédicos não apresentam o mesmo entusiasmo que demonstraram quando salvaram o latino. Tudo bem, estou exagerando. Talvez eu esteja sendo chato. Mas assista e comprove. E assista aos outros também. Você vai entender o que estou dizendo.
Depois de pensar isso tudo, me caiu a ficha. Esse é o segredo do Nick. Seus personagens são chatos porque ele é um cara chato, muito chato. Por isso você não o vê em colunas sociais, em festas ou programas de TV. Ninguém o convida porque ele é chato. Você conhece o tipo. Todo mundo tem ou teve um amigo assim. Aquele que quando é convidado, o fazem apenas para evitar saias justas sociais ou porque alguém teve pena dele. Esse é o Nick. Por isso Hollywood “cuida” dele com tanto carinho. Ele é o chato que até é um bom ator. Em alguns casos pensam nele logo de cara quando aparece um papel de algum personagem chato, como em Cidade dos Anjos. Em outros casos pensam nele por causa de suas caretas, como em Face Off. Mas a verdade é que todos sentem por ele, aquilo que sentem por todo chato. Uma mistura de tédio com pena. O cara não é má pessoa, só não é uma companhia legal. Não dá para bater papo com ele por mais de 20 minutos sem ficar de saco cheio mas, ora bolas, ele não é mau. Só é chato. Muito chato.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Explicações

A carta publicada no post anterior nasceu de um desabafo após um momento extremamente desagradável que vivi. Esta carta foi enviada no mesmo dia para vários meios de comunicação através da internet. Apenas um deles, o Jornal do Brasil, enviou uma resposta junto com uma pedido para que eu autorizasse a publicação da mesma. Assim foi feito e no dia 9 de novembro de 2006 a carta foi publicada parcialmente na seção "Leitor Repórter", causando alguma repercussão. Em seguida, no dia 12 de novembro, a mesma carta foi publicada, desta vez na íntegra como "O Melhor da Semana". Foi importante na época ter recebido apoio de um jornal e mais importante ainda perceber que falar pode surtir algum efeito. Estamos tão acostumados à passividade, a acreditar que as coisas não tem solução, que ficamos apáticos quando deveríamos reagir. Fica o exemplo.


quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Carta à PMERJ

Rio de Janeiro, 07 de novembro de 2006.

À caríssima (com duplo sentido) Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro


Escrevo para lhes agradecer pelo excelente serviço prestado na noite de ontem a este cidadão que vos escreve. Agradecer pelo maravilhoso retorno que tive de cada centavo pago em impostos. Agradecer por fazerem de minha família uma simples refém nas mãos daqueles que verdadeiramente mandam neste estado. Gostaria de estender ainda este agradecimento a alguns ilustres de nossa política, como a ilustre governadora, seu secretário de segurança e o comandante da referida instituição.
Porque ontem, às 22:30h assisti minha esposa ter todos os seus pertences roubados sob a mira de uma arma, em frente a minha casa. Da janela assisti a tudo e, durante todo o desenrolar do crime, como um bom cidadão que não tem arma em casa, liguei para o serviço de "emergência" 190. Fiquei 10 minutos ouvindo uma gravação me dizer que "todos os atendentes estavam ocupados". Pois os assaltantes levaram os pertences de minha esposa e de um vizinho nosso. Quando consegui ser atendido, os bandidos já estavam longe. E para aumentar o meu espanto e indignação, exatamente às 0:35 uma dupla de policiais militares apareceu na minha porta para me perguntar onde estava a vítima. Piada? Seria, não fosse a tragédia da situação.
Na delegacia, onde fui para realizar o boletim de ocorrência fui informado que a dupla de assaltantes já vinha sendo perseguida no começo daquela noite por haverem roubado um carro. Pois a perseguição não logrou êxito, uma vez que os mesmos ficaram parados na minha rua, esperando pela próxima vítima. Fui informado ainda que, após o acontecido em minha rua, os mesmos voltaram a ser perseguidos e novamente escaparam, abandonando o veículo com todos os documentos das vítimas (embora nada de valor, como celulares, jóias e dinheiro houvesse sido encontrado).
Pois é, senhores, mais uma vez os criminosos desapareceram "nas barbas" da polícia. Felizmente desta vez, nenhum cidadão foi acidentalmente baleado durante um tiroteio à esmo, como o que vemos semanalmente no noticiário. Afinal, se for para balear um cidadão, o melhor mesmo é que a polícia deixe os criminosos fugirem, do que trocar tiros estando cercado de civis.
Não escrevo pelo dinheiro roubado. Porque, ao contrário de muitos que estão no poder - e não me refiro especificamente a ninguém, a menos que a carapuça lhes sirva - minha família ganhará o dinheiro novamente com o suor de nosso rosto. O que me deixa indignado é a perda daquilo que nos é mais importante. Nossa liberdade. O direito básico de ir e vir. Porque sem segurança, ninguém se sente à vontade para exercê-lo com plenitude.
O que me deixa pasmo é ligar para o 190, horas depois do fato ocorrido, com o único intuito de desabafar com o primeiro ser humano que atendesse à ligação e, depois de longamente explanar minha indignação, ouvir do policial que me atendeu a justificativa para a inoperância da corporação. Contou-me que a polícia tem poucos carros - ou viaturas -, poucos homens - ou contingente -, atende a inúmeros trotes que ocupam indevidamente seus policiais e que, portanto era humanamente impossível cobrir todo o estado com eficiência.
E aqui eu gostaria de colocar algumas perguntas, embora queira também deixar claro que não espero e nem acredito que alguém se dignará a respondê-las.
- Porque um serviço que supostamente é de emergência possui "espera" eletrônica? Não seria o caso de ampliar a rede até que isso não mais acontecesse?
- Porque a polícia não passa pelo menos uma vez por dia em patrulhamento por todas as ruas de cada bairro, para se fazer presente?
- Porque a polícia persegue criminosos apenas até o momento em que eles adentram em suas comunidade, território tão proibido e perigoso que até os policiais não se arriscam a menos que seja em operações previamente programadas?
- Porque a polícia não contrata homens e compra carros até o limite que permita uma boa cobertura de todo o território a ser defendido?
- Quando um cidadão paga imposto, onde está incluído o pagamento pela segurança, e não recebe esta segurança de volta, tem direito a ser ressarcido pelo serviço mal prestado?
- E caso tenha direito a este ressarcimento, mesmo que após longo e sofrido processo cível, receberá o cidadão a sua indenização em dinheiro ou em precatórios que não serão descontados nem pela sua terceira geração?
- É certo um policial que atende aos chamados de emergência assumir a inoperância da corporação como um todo?
- E se esta corporação é realmente inoperante, a quem deve o cidadão recorrer para ter direito à segurança?
- E por fim, encontrem um mínimo de integridade e sinceridade em vossas almas e me respondam se, ao ler diariamente os jornais, ver os noticiários na tv, ou mesmo lerem relatos como o meu, vossas senhorias responsáveis em grau maior ou menor por esta situação caótica do nosso estado, não sentem vergonha por passarem diariamente para o povo a imagem de serem incompetentes, ineptos, inoperantes, insensíveis e incapazes?
Porque, senhores, quando eu falho no meu trabalho - e todos falham, em grau maior ou menor - eu me sinto mal. Eu procuro consertar o que fiz errado. Ou pelo menos me desculpar por aquilo que não está ao meu alcance consertar. Vossas senhorias não se sentem mal? Não se envergonham perante seus colegas e familiares? Certos sentimentos são humanos e, supondo que nenhum dos senhores tenha sido trazido por uma espaçonave, devem ter medo, vergonha, tristeza, frustração, compaixão, entre outros. Ou estarei enganado?
Não tenho esperança, infelizmente, que este estado venha a melhorar neste ou nos próximos governos, porque os anos de descaso fez de vocês como autoridades e de nós como cidadãos, reféns de algo que lhes foge ao controle. A ponto de um crime ser cometido dentro de uma ilha - como o que ocorreu comigo, na Ilha do Governador - que tem apenas uma entrada e saída, e mesmo assim os criminosos ficam “foragidos” dentro de uma ilha. Contando isso em países mais civilizados isso pode soar como piada. Mas brasileiros, autoridades ou cidadãos, não entendem, não conhecem e nunca foram apresentados a nada relacionado à civilidade. Lamento por mim, que não tenho a quem recorrer. Mas também lamento por todos vocês. Porque um dia isto se tornará tão grande que passará a atingir mais do que a classe média. Um dia eles serão maioria - até porque os governantes se esforçam para aumentar a massa de pobres do país - e, neste terrível dia, eles tomarão mais do que a carteira e o celular de um cidadão. Eles tirarão mais do que a vida de pais de família em troca de carros. Eles tirarão o pouco de poder que lhes resta. Eles lhes arrancarão de suas poltronas e de seus palácios, arrombarão seus carros blindados e invadirão suas casas com seguranças e circuito interno de tv. E neste dia talvez eu me sinta melhor. Pelo menos vocês terão sentido na pele, aquilo que todos nós vimos sentindo há décadas. E, sinceramente meus senhores, parcas autoridades que me governam: neste dia eu espero estar do lado deles.

Fernando Luiz da Rocha Freire Júnior

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Desabafo de Um Eleitor

Em agosto de 2002 eu fiquei “grávido” de meu filho. Naquele ano haveria eleições presidenciais e Fernando Henrique Cardoso estava terminando seu segundo mandato. Havia votado nele nas duas vezes em que concorreu e não tinha queixas graves em relação ao seu governo. Muito pelo contrário, atravessava um período de tranqüilidade financeira como não lembro de ter conhecido desde minha infância. Inflação controlada e poder aquisitivo em recuperação deixavam boa parte da população com uma sensação de que o barco navegava com vento de popa. Claro, falhas haviam e problemas eram conhecidos. Ao final de seu segundo mandato, FHC parecia ter perdido o entusiasmo no exercício de sua função e as coisas pareciam estar murchas.

Foi então que comecei a pensar se não seria aquele o momento de passar o poder para alguém que há mais de uma década o pleiteava. Alguém que ao longo dos anos apresentou um discurso radical, com idéias revolucionárias e de resultados discutíveis, que assustavam boa parte da população esclarecida. Em 2002, ao longo de mais uma corrida eleitoral, esta mesma pessoa aparecia com um discurso mais suave, menos radical e muito mais consistente. Nunca fui eleitor do Lula. Sempre me considerei um eleitor de centro-direita, e me identificava muito mais com as idéias e posturas do PSDB do que com o “revolucionismo” sugerido pelo PT. Em todas as eleições em que ele concorreu, sempre preferi seus adversários, mesmo quando este fora o Fernando Collor de Mello. Mas em 2003 haveria um novo cidadão no Palácio e um novo cidadão na minha casa. Pensei, analisei, repensei e achei que aquele momento era muito simbólico. Minha vida mudaria com a chegada de um filho e talvez fosse a hora do país também mudar.

Decidi votar no Lula muito mais pela vontade de dar ao meu filho um país diferente do que por acreditar cegamente no programa de governo apresentado por ele. Mesmo mostrando-se um profundo conhecedor de cada recanto deste país e de seus vários problemas, restava a dúvida quanto à sua capacidade administrativa. Faltava-lhe experiência como gestor público. Na verdade Lula não havia tido nenhum emprego desde que abandonou a vida sindical. Lula não era um homem letrado, com diplomas ou conhecedor de idiomas. Causava-me desconforto imaginá-lo viajando pelo mundo como nosso representante, freqüentando palácios, conversando com grandes líderes e possivelmente cometendo as mais variadas gafes. Mas havia um lado inquestionável do Lula. Sua origem humilde, sua luta ao lado dos mais fracos e sua honestidade. Isso fazia dele um político mais humano, mais parecido com o nosso povo e talvez desse a ele as melhores condições de nos representar no mais alto cargo da nação. Estes valores poderiam e deveriam suprir a falta das outros requisitos, como a cultura e a informação. E eu assim acreditei. Pela primeira vez estava decidido a votar nele. Meu cérebro e meu coração estavam convencidos de que era chegada a hora de dar a ele a chance de pegar no leme da nação. Hora de ver o que a esquerda, representada naquele homem simples, poderia fazer pelo país. Acompanhei cada jornal, cada propaganda eleitoral, cada debate e entrevista. Nada tinha contra José Serra, o homem que era apontado como exemplo até na ONU por sua conduta enquanto ministro da saúde. Mas Lula parecia ser mais, ter mais. Sua nova postura passava confiança.

No dia da eleição votei confiante como nunca havia votado em toda as vezes em que exerci meu direito de cidadão. Ainda que neste país o voto seja um dever, e não um direito. Mas isso é assunto para outro texto. Votei e voltei para casa para acompanhar a apuração de uma eleição praticamente decidida fosse no primeiro ou o segundo turno. No dia em que Lula foi declarado oficialmente o novo presidente do Brasil eu comprei duas edições do jornal O Globo. Uma eu li e outra eu guardei dentro de um saco plástico como uma relíquia. Ali estaria preservado o registro de um momento histórico. Mais tarde poderia mostrar para o meu filho todos os detalhes sobre o que talvez fosse o dia mais importante de nossa história. O dia em que o Brasil tomou um rumo novo e correto. Pode parecer exagero, mas estas eram exatamente as sensações que eu tinha naqueles dias. Não sei se pela paternidade, se pela mais pura e profunda esperança depositada num homem simples, mas o fato é que eu acreditava nisso tudo. Naquela época o mundo não andava bem das pernas, havia crises ao redor do planeta, mas por aqui os ares da renovação tornava mais fácil respirar no dia a dia.

No dia de sua posse estava grudado na televisão. Ouvia cada palavra do novo presidente e podia sentir cada emoção que ele demonstrava sem o menor pudor. Junto com ele eu me entusiasmei, me exasperei e até chorei. Suas palavras pareciam ser claramente improvisadas, como devem ser as palavras vindas de um homem simples. Suas frases nada rebuscadas soavam como históricas. “Que nunca mais, na história deste país, alguém ouse duvidar da capacidade do trabalhador brasileiro!”. A frase ecoava e era repetida à exaustão por todas as rádios e televisões do país. Estava fincado o marco zero de uma nova era. E acredito que até mesmo uma boa parte daqueles que votaram em seu adversário, pelo menos naquele momento, sentiram que algo de bom poderia realmente estar acontecendo.

Então minha esperança começou a ruir. E não me refiro apenas aos escândalos, negociatas, fraudes, desvios, mentiras e supostas traições. Mas me refiro também às atitudes e decisões de Lula enquanto presidente. É preciso que alguém explicite e desfie cada atitude e cada postura nociva que o novo presidente tomou. Porque Lula errou duas vezes. Errou quando perpetuou erros antigos, cometidos por governos anteriores e errou quando tentou mudar aquilo que aparentemente estava correto.

Gosto de política. Por gostar dela, tenho por hábito acompanhar as notícias do presente, ler sobre o passado e tentar desenhar o futuro. E por acompanhar, acabo entendendo sobre política e percebendo suas nuances e caminhos tortuosos. Entendo a política, aqui ou em qualquer lugar do mundo, como um jogo de xadrez. Na política, como no xadrez, às vezes é preciso sacrificar um cavalo para que se possa capturar um bispo. No xadrez, como na política, há aqueles que pensam no movimento que farão doze jogadas à frente e há aqueles que pensam apenas no próximo movimento. E ambos são democráticos: qualquer pessoa pode jogar xadrez, assim como qualquer pessoa pode entrar na política. E haverá pessoas brilhantes e medíocres nas duas situações. Mas pensar no Lula e nesta enorme decepção me incomoda. Principalmente porque ele deverá ser reeleito. Quem (sobre)viver verá.

sábado, 14 de outubro de 2006

Botando a preguiça de lado...

Já estava na hora. Foram anos escrevendo aqui e ali sobre tudo. Quem lia - quando alguém lia - sempre me estimulava a tornar público o que estava no papel. Por preguiça e uma pitada de covardia eu nunca me entusiasmei com a idéia. Hoje respirei fundo e então... Dei um puta espirro, porque tenho rinite alérgica e hoje está frio e chovendo. Depois de assoar o nariz, respirei superficialmente e aqui estou eu. Momento histórico. Palmas, lágrimas. Agradecimentos aos amigos e familiares. Sobe a música.

domingo, 13 de fevereiro de 2000

Sequestro do 174

Escrevo estas linhas minutos após assistir ao noticiário que relatou o falecimento de uma das reféns do seqüestro ao ônibus da linha 174 aqui no Rio de Janeiro. Morreu a professora Geysa. Não sei descrever o sentimento que me incomoda, me angustia e me revolta. Só posso dizer que é intensamente triste. Mil questões me ocorrem, perguntas sem resposta sobre problemas aparentemente sem solução. Aquele que puder, autoridade ou cidadão comum, civil ou militar, rico ou pobre, por favor me explique.

Que polícia é essa? Quem os treina? O quê treinam? Quanto treinam? Sou apenas mais um cidadão como todos os outros, dezenas de milhões de pessoas sendo feitas de bobas pelas autoridades deste país. De nada sabemos, mas novamente imploro, alguém me esclareça.

Como pode um bandido “ladrão de galinhas” – assim o julgo pela indumentária, armamento e aspecto do mesmo – causar tanto transtorno e dificuldade para uma polícia que se diz em constante treinamento? Serei eu o ignorante ou a polícia inepta, quando permite que apenas um homem, fracamente armado – apenas um revólver – domine por completo a situação?

Ouvi na TV que a estratégia seria cansar o bandido até a sua rendição. Será que era isso que a polícia queria quando forneceu água, cigarro e ainda o permitiu repousar sentado ao chão do veículo? Visto pela TV, de longe, o bandido deu inúmeras chances de ser atingido com um tiro limpo, sem riscos para os reféns. Quando colocava a cabeça para fora do veículo e gesticulava de arma em punho, sem apontar para ninguém. Não existem mais os tão famosos e treinados atiradores de elite? Era medo de executar o bandido em frente às câmeras e depois ter que se explicar com entidades idiotas de defesa dos direitos humanos? Ou medo de errar e acertar um refém como fez uma vez a polícia paulista? Terá faltado uma voz de comando liberando este tiro pacificador? Que espécie de negociação foi feita, que permitiu que por mais de quatro horas um único homem com uma única arma, zombasse de todo um batalhão (o 23º) e debochasse de uma corporação incluindo o seu tão famoso BOPE?

Alguém da polícia dirá: “Como ter certeza de que era apenas um homem? Como saber quantas armas ele portava?”. Simples: o primeiro refém libertado poderia dar todas as informações, como o fez para a imprensa, esclarecendo as dúvidas da polícia que então estaria preparada para uma ação limpa.

Ainda tenho mais perguntas. Porque foi permitido ao bandido assistir toda a movimentação da polícia? Porque apenas ele dificultava a visão da polícia, ligando luzes de alerta, limpadores de pára-brisa e até nuvens de pó químico? Um ônibus urbano é uma vitrine, completamente devassada que permitiria um tiro claro e certeiro de qualquer ângulo. Porque o negociador permitiu que um bandido, que a princípio estava se rendendo, saísse armado e com uma refém junto ao seu corpo e sob sua mira? E porque um único policial decidiu agir neste exato momento, dando um tiro lateral, não fatal e que deu chance ao bandido de efetuar vários disparos contra a refém ainda no solo? Porque este maldito policial fez o disparo de forma tão imprudente que terminou por atingir também a refém, que saiu do local numa ambulância e gravemente ferida? Quem autorizou este maldito policial a interferir no trabalho do negociador?

E quanto aos negociadores? Onde eles treinam? Em sala de aula ou em simulações teatrais e bem conduzidas? Fazem estágio em situações reais em outros países, já que o nosso não tem um volume suficiente de ocorrências deste tipo, que permita a este profissional tornar-se experiente?

Porque a polícia não divulgou o nome de todos os incompetentes policiais envolvidos no episódio, fossem eles oficiais graduados ou subalternos? Porque um policial assassino que mata um civil não responde à justiça comum dos mortais?

Que trágico espetáculo de inoperância, ineficiência e irresponsabilidade. A quem podemos recorrer, a quem clamar por segurança? Quais serão as conseqüências do fato? Esta eu mesmo respondo: meia dúzia de cabeças serão cortadas, outras tantas transferidas de batalhão e novas cabeças, iguais as anteriores, assumiram os postos. Então só no restará a próxima absurda tragédia. Todos nós, dezenas de milhões de passivos, tocando nossas vidas, como se o ocorrido não nos atingisse, afinal não foi conosco – pelo menos desta vez.

O seqüestro do ônibus 174 revela graves falhas em todo o sistema. Falho por manter um bandido condenado preso numa delegacia, quando este deveria estar num presídio. Falho quando permite que o bandido fuja mesmo sob a vigilância do Estado. Falho quando os policiais que o perseguem, percam de vista seu alvo e ainda permitem que o mesmo entre num coletivo. Falho quando não sabe conduzir uma situação de extrema tensão como um seqüestro. E absurdamente falho quando reluta demais em agir e quando o faz, realiza uma ação amadora que resulta em dois assassinatos: refém e bandido.

E que tal o abuso de autoridade quando dentro de uma viatura policial realiza um “julgamento” que termina com a condenação e a execução sumária do bandido? Só a certeza da impunidade levaria policias a tal ato.

Que espécie de batalhão é o BOPE, que se diz especializado, e que durante a operação não utilizou rádios comunicadores e ainda manteve o rosto de seus homens completamente exposto para toda a bandidagem que assistia pela TV? Que polícia é essa que sobe morros em operações contra o narcotráfico que mais lembram uma guerrilha urbana, e o fazem sem coletes, capacetes e expondo todos os policiais aos mais variados riscos? Quem é o responsável, por esse show de irregularidades, ignorância e estupidez? Que governo é esse que, num primeiro momento, defende todas as atitudes erradas da corporação?

Por outro lado, esta mesma polícia vem executando diária, teatral e religiosamente nos mesmos locais e horários dezenas de operações policiais conhecidas como BLITZ. Mais uma vez eu imploro por uma explicação. Que bandido é burro o bastante para não saber o exato local e horário dessas operações, quando elas são repetitivas e sempre precedidas de um engarrafamento? Ou será que o objetivo destas operações não é diminuir a criminalidade como o roubo de veículos, o tráfico de armas e drogas? Será apenas uma forma fácil de aumentar a receita através de multas e propinas por causa dos IPVAs atrasados?

Enfim, como sei que não obterei resposta para nenhuma destas questões nos próximos anos, fica aqui este registro lamentável de mais um episódio triste do nosso dia a dia.