
Os defensores da topada argumentam que o dedo mínimo não deveria nem existir, já que sua única função seria a de nos orientar espacialmente, determinando os limites dos pés. Não do seu pé, que fique bem claro, mas dos pés das mesinhas de centro, bancadas e afins. Uma topada bem dada envolve até perda da unha e impossibilidade de usar qualquer calçado que não um chinelo durante dias.
Já os que elegeram a pancada no saco diziam que nada se compara à sensibilidade desta parte tão vulnerável da anatomia masculina. Uma dor aguda e contínua, tal qual um violino vibrando uma única nota infinita e incômoda.

Não tive cara de falar na hora, mas eu sou especialista em auto-agressão escrotal – se me permitem o termo técnico. E é uma habilidade antiga e de certo modo periódica. De tempos em tempos eu tento destruir minhas bolas, em alguns casos com tanto empenho que a coisa nem parece acidental. As vezes até de forma cruel.
A primeira vez a gente nunca esquece. Eu tinha 12 para 13 anos e Michael Jackson estava em seu auge. Todo moleque naquela época queria imitar o Michael e treinava coreografias na frente do espelho para depois tirar onda nas festinhas. Eu era relativamente talentoso e tinha uma flexibilidade incrível. Colocava as duas pernas atrás do pescoço com a maior facilidade. Natural que eu me aventurasse em ousados passos. Durante uma apresentação familiar eu executei um dos mais simples, aquele em que Michael sustenta o corpo numa perna só, enquanto balança a outra flexionada para logo em seguida juntá-las em posição

Depois desta estréia outras tantas agressões aconteceram. Confesso que nenhuma delas foi tão espetacular quanto a primeira, mas em muitas as conseqüências foram bem sérias. Cheguei a ter infecções por rupturas de estruturas internas das minhas amigas – se é que elas ainda me consideram um amigo. Os mais íntimos chegam a me tratar como uma lenda. Eu não conheço outra pessoa que tenha esta capacidade e aposto que você só conhece a mim. Não há outro. Chega a ser um milagre eu ter um filho. Seja cruzando pernas, sentando em cima ou batendo em quinas de mesas eu sei que muitas outras ainda virão.
Há quem diga que o saco é a parte mais importante do corpo de um homem. Que sem ele não teríamos onde guardar as bolas e certamente acabaríamos largando as delicadas estruturas em cima da mesa imunda de algum bar. Ou pior, perdendo pelas ruas para serem pisadas por algum distraído. Imagine o setor de Achados & Perdidos de um grande shopping então! Como reconhecer as suas próprias bolas numa caixa com mais de duzentas? Ah, sem problemas, as minhas são achatadas como uma bolacha maria depois de mais de 20 anos de porradas constantes.
Não sei se existe alguma explicação para esse meu karma. Nem sei se um dia isso terá fim. Na verdade, só tenho uma certeza: haverá uma próxima. E vai doer. Muito.