quinta-feira, 5 de maio de 2011

Inveja? Não, Admiração.

Vou começar com uma frase bem gay. Meu sonho era ser mãe. Não exatamente carregar uma barriga ou parir. Mas ser mãe no sentido subjetivo da coisa. Poder sentir o que apenas pude imaginar vendo uma mãe muito especial atuando.

Que ser mãe é ter a certeza que sua vida inteira mudou num passe de mágica apenas por abrir o resultado do exame de gravidez. É ver seu corpo sofrer alterações drásticas, que ela julga até horrorosa, mas não estar nem aí pra isso. É enjoar terrivelmente, passar dias sem poder comer nada, e mesmo assim ter a certeza de que isso passa e logo o docinho vem. Gastar horas e horas comprando roupinhas, arrumando um quarto como se ele já estivesse ali.

Curtir a ansiedade mais gostosa do mundo no dia de ir para a maternidade e enfrentar o medo da dor com um sorriso no rosto, porque aquela lágrima vem do coração e não de um útero se contorcendo. É sentir sua alma num silêncio de reverência ao pegar o docinho pela primeira vez no colo, ao mesmo tempo em que houve uma sinfonia de anjos anunciando a nova vida gerada.

Voltar pra casa ainda tonta e se recuperando da cirurgia, e mesmo assim ter forças para passar horas e horas vigilante e atenta a qualquer necessidade dele. Sentir a sublime comunhão da amamentação, que nutre o corpo dele, mas ilumina a alma de ambos. É ficar ao lado de um berço olhando ele dormir sem perceber o tempo passar.

Mas nem tudo são flores e ser mãe também é sentir o coração apertado ao sair de casa com a obrigação do trabalho, mesmo sabendo que ele está com o pai. É tirar seu leite e guardar numa fria geladeira, como quem deixa um pedaço de si mesma para acalentar seu filhote na sua ausência. Ter que ficar horas no trabalho com a cabeça a mil, mas tendo deixado seu coração dentro de um berço, disfarçado em travesseiro.

É sentir uma faca rasgando seu peito ao deixar o docinho no colo de uma estranha no primeiro dia de creche, sabendo que só voltará oito horas depois. É ter a consciência de que não estará presente em cada segundo desta fase tão especial e por isso perderá momentos únicos.  E pior do que tudo: sem que ele possa se expressar, não saber como ele está se sentindo com tudo isso.

Em seguida é se ver sozinha com o docinho e ter que reformular todo um planejamento para garantir que ele seja o menos afetado pelas mudanças. Lutar como uma leoa para defendê-lo, para supri-lo, ainda que isso envolva sacrifícios pessoais nunca antes imaginados.

É ter um medo constante de não estar sendo boa o bastante, presente o bastante, amorosa o bastante, mesmo vendo que o docinho é feliz como poucos. Sentir as pernas bambas nos primeiros passos dele. Sofrer a dor do primeiro arranhão no joelho. Se orgulhar em cada pequena conquista. Mas acima de tudo e sobre todas as coisas é aprender a conviver com a certeza que de ela não poderá protegê-lo e salvá-lo de tudo nessa vida, por mais que isso cause angústia.

Mas ele cresce rápido, o tempo voa e ser mãe passa a ser a mais sublime das vivências.  É achar tempo na sua vida que já era corrida para que nuca falte o momento dele. Cuidar do uniforme, mãe não gosto desse tênis, preparar almoço, não quero a cenoura, respira, leva na natação, a água tá fria, anda menino, tem dever de casa, perdi minha borracha na escola, hora do jantar, corre pro banho que tá na hora de dormir, pode ligar o ar condicionado, mas ele ainda quer uma coisinha pra comer... Ufa!

E nada disso é capaz de expressar tudo o que uma mãe sente. Padecer no paraíso, disseram alguns. Pelo que pude observar nesta mãe, é descer no paraíso e lá ficar durante anos. Se em outra vida me for confiada esta missão, espero poder me lembrar de como essa mãe é. Que ela me inspire nas atitudes, como inspirou este texto. E que me conceda a honra de estar ao seu lado hoje, amanhã e sempre.

Porque esta é a mais bela e difícil tarefa que pode ser confiada a uma mulher: amar incondicionalmente um pedaço de si mesma que por benção divina passou a viver fora de seu corpo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Lar, Doce Lar

Finalmente assisti ao filme Nosso Lar. Sei que é uma falha absurda, para um espírita declarado, ter levado tanto tempo para tal, mas também sei que nada acontece por acaso. E quis o destino que isso acontecesse justamente após eu ter assistido a uma palestra do Divaldo Franco – que vem a ser apenas o maior orador espírita do mundo.

Nesta palestra, Divaldo cita uma passagem pessoal, quando nos USA iniciou sua explanação dizendo não acreditar em vida após a morte. Seu tradutor se recusou a traduzir a frase, espantado com a afirmativa e começou uma discussão de lábios semicerrados, até que Divaldo concluiu. Disse não acreditar e sim saber que existe vida após a morte. Pois quem acredita hoje, pode desacreditar amanhã. Quem confia hoje, pode não confiar amanhã. Mas quem sabe, sabe para sempre. Essa afirmação, entre outras tantas na palestra, me marcou muito.

Os dias se passaram e então me sentei para ver o filme. Claro que nada que vi ali me causou espanto, pois eu já sabia de tudo o que aparece na obra. Já li o Livro dos Espíritos, sei como a coisa funciona do outro lado, o trabalho, a hierarquia, a organização social, os vários níveis das colônias, tudo. Mas nada disso reduziu o impacto de ver aquilo tudo em imagens.

A angústia do umbral, a harmonia da colônia, o amor e a fraternidade entre seus habitantes e – impossível não associar – a arquitetura local. É impressão minha ou a dupla dinâmica Lucio Costa & Oscar Niemeyer andou projetando a colônia em cima do Brasil? A parte da sopa me preocupou um pouco, já que não gosto de alimentos líquidos. As roupas brancas são tranqüilizantes, mas sentirei falta de todas as minhas camisetas pretas. No resto acho que me adaptarei bem...

Piadas à parte, eu adoraria dizer que foi maravilhoso poder relembrar todos aqueles lugares onde já estivemos e para onde iremos. Mas sabemos que uma das regras do jogo evolutivo é ter sua memória formatada antes de voltar pra vida encarnada. O filme pode não ter servido para refrescar a minha memória, mas posso afirmar que foi maravilhoso ver tudo aquilo personificado, ainda que através da magia do cinema.

Minha sensação ao final do filme me remeteu imediatamente às palavras do Divaldo. Não que eu apenas tivesse fé e acreditasse. Assim como ele, eu também sei o que existe após a morte (e antes dela) desde meus catorze anos, quando me projetei altralmente pela primeira vez.  Mas, de certo modo o filme reforçou toda a minha crença. E foi igualmente inevitável não mudar a forma como vejo as pessoas ao meu redor, principalmente aquelas a quem amo. Minha mulher e meu filho, que estavam ao meu lado, certamente estiveram comigo lá em cima, assim como estarão comigo novamente dentro de algumas décadas.

Pra você que não é espírita e está lendo esse texto, tudo pode parecer uma viagem muito louca e eu não vou, nem quero tentar te convencer do contrário. Na hora certa todo mundo vai saber, querendo ou não. Mas posso te garantir que tudo faz muito sentido, tudo se encaixa perfeitamente e acima de tudo: nada é por acaso.

Se o espiritismo foi a única “religião” que me deu todas as respostas que eu busquei, o filme veio dar uma imagem – em cores e alta definição – a todas as palavras que tenho lido ao longo dos anos. Nosso Lar, a colônia de onde viemos e para onde iremos, passou a ter uma imagem representada na Terra. De certo modo, o filme quebrou a regra que diz que não podemos nos lembrar de lá quando estamos encarnados.

Agora já podemos. Inclusive em Blu-Ray full HD!!!!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cabeça Oca e Pés de Barro

O mundo está evoluindo. É um fato. Ainda que lentamente, percebe-se aqui e acolá uma melhora na consciência coletiva em relação a muitos problemas. As questões sociais dos excluídos, a pobreza, a deterioração do meio ambiente e outros assuntos têm sido cada vez mais discutidos. Não que isso garanta a solução de nada, mas acena com possibilidades muito melhores e maiores do que imaginávamos há 10 ou 20 anos.
Mas há outro lado que me assusta nesta nova sociedade: os ídolos distorcidos que ela incensa. Não sei se a internet é a causadora ou apenas veio sedimentar uma tendência moderna, mas o fato é que a sociedade está admirando as pessoas erradas e o pior: pelas razões mais absurdas.

Todo mundo sabe que sou fã do BBB, o quanto me divirto com aquele “freak show”, mas vejo aquilo apenas como uma das minhas dezenas formas de lazer. Entretenimento puro. No entanto estive no shopping onde foi montada a Casa de Vidro e lá fiquei admirando e tentando entender por alguns minutos o que se passava.
Ali estavam seres humanos numa jaula, sendo assistidos por outros seres humanos em frenesi. O zoológico moderno. Só que, ao contrário do zôo tradicional, os animais confinados não tinham o olhar triste das feras desterradas. Era uma histeria coletiva, dentro e fora das “grades”. Uma catarse que seria um prato cheio para um sociólogo.
Não entendo, mas respeito. Esta semana o apresentador Pedro Bial citou Napoleão em um de seus discursos pré-eliminação – no que, aliás, é o único momento realmente cultural do programa. Tudo correu bem, as pessoas saíram da casa, a programação seguiu normalmente e eu pulei para o pay-per-view. Quem teve o desprazer de assistir, deparou-se com diálogos que poderiam ser engraçados. Poderiam. Mas eram lamentáveis.
Paula perguntou a Jaqueline quem era Napoleão. Esta respondeu que era aquele do ditado “Foi assim que Napoleão perdeu a guerra...”. Não satisfeita com a resposta, Paula foi atrás de Rodrigo que não conseguiu ir muito além de “Ele era francês... Conquistou a nação...”. E daí pra frente é melhor nem comentar.
São estas pessoas que, ao saírem da casa, serão idolatradas. Ainda que por um curto espaço de tempo, elas provocarão tumulto onde estiverem. Serão convidados VIPs em festas, serão entrevistados e terão suas idéias e opiniões, ainda que estapafúrdias, divulgadas em todos os meios de comunicação.
Somos uma sociedade deficiente de ídolos ou com valores deturpados que nos fazem idolatrar as aberrações?
O cantor mais idolatrado não é o que tem a melhor técnica vocal. É o que faz o melhor marketing, o que usa o cabelo certo e a roupa certa.
O jogador de futebol com mais fãs não é o mais habilidoso ou que faz mais gols. É o que aparece nos jornais com as melhores mulheres, nas melhores casas noturnas e com o melhor carro.
Não estou aqui defendendo a utopia de que as pessoas gritem no shopping quando virem um cientista que pesquisa a cura para o câncer, muito menos que desmaiem ao esbarrar com aquele empresário que mantém uma obra social que atende centenas de crianças. Não se trata disso. Mas acho que precisamos rever os valores que nos levam a endeusar qualquer pessoa. E não precisamos ir muito longe para citar exemplos.
Ayrton Senna era um ídolo do esporte, com comportamento exemplar. Zico, Roberto Carlos – o cantor, Paulo Coelho e outros tantos reconhecidos por seus verdadeiros talentos e que, além disso, mantém posturas e condutas adequadas. Em resumo: servem de exemplo. Afinal não é para isso que servem os ídolos? Permitir que um pai os aponte para seus filhos e diga que aquele é um exemplo a ser seguido?
Gostaria muito que as pessoas pensassem nisso. Você gostaria que seu filho seguisse o caminho daquele a quem você tanto idolatra? Se a resposta for não, imediatamente destitua o ídolo de seu posto, pois ele não o merece.
Talvez os próprios ídolos não tenham consciência de sua importância para a evolução de uma sociedade. Quando um pai aponta com idolatria, por exemplo, para o jogador Adriano, seu filho aprende que aquele é um modelo a ser seguido. Isso é muito grave e pode trazer um custo enorme para o nosso futuro.

Napoleão seria famoso nos dias de hoje? Claro que sim. Desde que ele fosse ao programa do Ratinho para ser confrontado com suas duas ex-esposas, Josefine e Maria Luisa sobre uma possível traição ou um teste de DNA. Ou que se sentasse no programa da Marcia Goldsmith para discutir com Robespierre sobre as sujeiras da nobreza.

Como? Quem foi Maria Luisa e Robespierre? Eu sabia que estava falando com as paredes. Pode voltar pra assistir BBB.
Tem algo muito errado nessa escala de valores. Nossos ídolos têm pés de barro e nossos santos são do pau oco. Lástima.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Paraíso é o Closet

 Faz muito tempo que não abordo o universo feminino. Sinto falta disso. Não de viver nele, mas de escrever sobre ele. Ultimamente tenho participado freqüentemente de uma rotina feminina que me fascina: comprar roupas. Não para mim, mas acompanhar uma mulher enquanto ela escolhe roupas. Sério! Eu gosto disso, de verdade.

Sei que muitos homens vão dizer “você é doido!”, enquanto as mulheres dirão “duvido!”. Mas desde pequeno me acostumei com a rotina feminina da periódica compra de roupas, o rodízio no armário, os infindáveis pares de sapato... Tudo me é muito familiar. Entendo essa necessidade delas, a importância que essas atividades têm e mais do que tudo, o prazer que tudo isso lhes causa.

Já observaram uma mulher numa loja de roupas? Digo observar mesmo, despido de preconceitos, prestar atenção nas atitudes, nas reações delas. É um dos raros momentos em que você pode perceber um ser humano unindo extrema seriedade com prazer. Como alguém que leva a sério a profissão que escolheu, mas o faz com máximo prazer. Naquela hora ela está concentrada, a cabeça trabalhando em total atividade, analisando cada peça. Não é um pensamento simples e sinceramente acredito que poucos homens consigam ter algo parecido.

Imagine um desses grandes magazines de roupa. Ela entra como se tivesse um radar ligado. Ao mesmo tempo em que usa sua visão periférica pra perceber tons e formas a distância, mantém o foco em cada peça ao alcance de seus dedos. Estes por sua vez tocam os tecidos, sentindo a textura e qualidade do possível alvo. Tudo isso acontece ao mesmo tempo em que o cérebro cruza informações de tudo o que ela já possui em seu guarda-roupa, já antevendo possíveis combinações e suas variáveis.

Convenhamos: para nós homens, cujo cérebro é especializado em realizar uma tarefa por vez, só de imaginar pode causar dor de cabeça. É mais uma prova de que homens usam o sistema operacional DOS. Uma linha de comando por vez. As mulheres rodam em Windows. São multitarefa: escrevem um texto, enquanto ouvem música e ainda navegam na internet.

Mas não é tudo. As mulheres conseguem manter toda essa atividade por horas, sem demonstrar cansaço ou desânimo, mesmo quando demoram a encontrar algo que lhes interesse. Experimentam, trocam o tamanho, a cor, o modelo, incansáveis na busca da imagem ideal. São a determinação em sua forma mais bela. E quando encontram uma roupa que lhes agrade? Pensa que acabou o trabalho? Engano seu, meu caro homem. Só uma mulher é capaz de realizar o perfeito escrutínio de uma peça de roupa. Nada escapa ao olhar clínico e detalhista delas. Fios puxados, zíperes emperrados, costuras tortas, estampas borradas e mais um sem número de imperfeições possíveis como em qualquer linha de montagem. Elas detectam com destreza e tratam de procurar uma que possa receber o seu tão sonhado selo de qualidade.

Agora me diga você, meu caro colega de testosterona, qual de nós seria capaz de realizar algo semelhante? Qual de nós teve paciência de escolher uma simples calça jeans em mais do que duas lojas, experimentar mais de três peças de roupa, ou ter percebido que aquela camisa tinha uma mancha no punho. Se você é homem e hetero, provavelmente nunca fez nada disso. Muito menos levou mais do que 30 minutos pra escolher fosse qual tipo de roupa precisasse.

Pra você que torce o nariz, pra você que bufa, bate o pezinho, cruza os braços ou larga ela na Renner e corre até a praça de alimentação pra encher a pança, ou qualquer outra coisa que não acompanhá-la de forma sorridente e participando de cada escolha, deixa eu te contar um segredinho.

Elas dizem que fazem isso por elas (assim como a depilação, as unhas e todo o resto) e isso é verdade, mas não é toda a verdade. Você também tem “culpa” nisso tudo. Porque também é pra você que ela se cuida, se enfeita e se preocupa tanto com a aparência. Então experimente, pelo menos por uma vez, ficar ao lado dela. Opine em cada peça. Elogie quando gostar e sugira outra coisa quando não estiver do seu agrado. Mostre interesse por essa parte tão importante e deliciosa do mundinho dela. E durante tudo isso, observe-a com atenção e tente perceber tudo o que descrevi aqui. Aposto que você também vai se divertir.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Homem-Tartaruga



Nos anos 90, o irmão do meu cunhado estava envolvido com uma produtora de eventos e volta e meia alistava amigos para trabalhos de freelancers braçais, como roadie e contra regra em shows dos mais variados. Era um trabalho divertido e ainda rendia uma graninha extra pra cerveja. Mas se havia o lado bom, que era conhecer artistas havia os problemas naturais do ofício.

Uma vez tomei um mega esporro do falecido Eduardo Conde, mestre de cerimônias de um evento popular em Campo Grande, porque tinha colocado o pedestal do microfone baixo demais. Eu não me toquei que o cara tinha mais de 1,90m e o microfone estava no peito  dele...
Neste mesmo dia tive a oportunidade de buscar Moraes Moreira e seus músicos numa Kombi caindo aos pedaços em Copacabana e levá-los até Campo Grande, numa inesquecível e divertida viagem com um papo delicioso.

O trabalho mais incrível dessa época foi realizado na UERJ. O projeto era algo do tipo “Música no Almoço”, onde um artista convidado se apresentava no pequeno anfiteatro do Campus no Maracanã, respondendo perguntas da platéia e fazendo um pocket show acústico. No dia em que fui convocado pra ser roadie, o convidado era o Lobão. O que dizer sobre o velho Lobo? O cara chegou na UERJ as 10 da manhã e sua única exigência foi uma garrafa de uísque e um balde de gelo, que ele detonou nas cerca de 3 horas que antecederam a apresentação. Depois vieram as perguntas, as músicas e eu me diverti muito com a porra-louquice do convidado.

Mas o motivo desse texto não foi o show em si, que transcorreu muito bem. O que veio em seguida é que foi inesquecível. Terminado o show, era o momento de desmontar o circo. Desfazer camarim, recolher equipamento, banners e todo o resto. Tudo ia bem, até chegar a hora de guardar os painéis. Eram três, feitos em dois pedaços de madeira maciça do tamanho de portas, unidos por dobradiças e forrados internamente com cortiça para prender cartazes e banners. Esses murais móveis precisavam ser retirados do anfiteatro e levados até o almoxarifado. Entre os dois, apenas um pátio interno. Um caminho de cerca de 50 metros.

Ora, eu estava trabalhando com o tal irmão do cunhado e mais um amigo.  Éramos três, eram três painéis, nada mais natural do que cada um pegar o seu e adiantar o serviço para irmos embora. O “chefe” pegou o dele, dobrou, jogou sobre as costas e saiu andando. Meu outro amigo fez o mesmo. Sobrou um. Era o meu. Fiz como eles: juntei as portas, virei de costas e deixei que elas tombassem sobre mim. Era pesado. Olhei pra frente e vi os outros dois já no meio do pátio. Não dava pra voltar atrás. Abri os braços e apoiei o conjunto pela lateral. Dobrei o corpo e as portas saíram do chão, repousadas sobre minhas costas.

Naquele momento o planeta sofreu uma alteração em seu eixo, seu pólo magnético foi deslocado e a velocidade de rotação diminuiu, fazendo com que a gravidade se tornasse algo mais poderosa. Pelo menos ali na UERJ.

Comecei a caminhar com dificuldade, tal qual um Atlas, carregando o mundo em minhas costas. Saí do anfiteatro com passos ainda firmes e comecei a cruzar o pátio. Um calafrio correu a espinha, a perna tremeu. Pensei em parar, mas sabia que se o fizesse, não voltaria a andar. A inércia me movia. Olhei em volta, pátio cheio de estudantes que ainda comentavam sobre o show. Alcancei o meio do pátio, mãos doendo, pernas tremendo e então a gravidade sofreu nova alteração. Pra mais. Eu arriei no chão. Eu não caí, foi mais como uma implosão, lenta, em estágios. O joelho dobrou e eu fui me deitando com as portas do inferno sobre mim. Quem olhava via apenas um par de portas no chão de onde saía um par de braços e outro de pernas.

Mico do século, mas eu estava bem, aliviado. Respirava feliz, mesmo naquela situação. Do meu ângulo via apenas um pedaço do pátio e as pessoas rindo de se dobrar. Não consegui virar a cabeça pra olhar de onde vinha a voz:

- Alguém ajuda o menino aqui, PELAMORDEDEUS!!!

Era a tia da limpeza, preocupada com o fim do meu calvário. Foi o tempo de meus amigos retornarem e erguerem a trapizonga, liberando meu singelo chassi de frango. Não preciso dizer que, durante muitos meses, a história do Homem-Tartaruga foi divulgada por todos os cursos da UERJ. E esses dois amigos até hoje não perdoam. E eu nunca mais me arrisquei a carregar algo que não tivesse absoluta certeza de que agüentava.

Como dizia Sassá Mutema: “Quem não pode com o pote, não segura na rodilha...”

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Se Meu Fusca Falasse...

Quem me conhece, sabe que eu tenho atração por mulheres fortes. Não estou falando de fisiculturistas, mas de personalidades marcantes. Mulheres decididas, determinadas. Sempre gostei do desafio que é a relação com esse tipo de mulher. Mas já tive problemas por causa disso.
Sim, meus caros, aqui vai se tornar pública mais uma derrota na vida deste que vos escreve. O ano era 1996. Na época eu estudava medicina na UFF, morava no Recreio e tinha um Fusca 1974 que me ajudava (ou atrapalhava!) no trajeto entre os dois lugares. Quem já teve um Fusca, entende o que vou contar. Aquelas bolotas de lata eram guerreiras. Aguentavam o tranco mesmo. Qualquer esquina tinha um Zé que soubesse consertar aquele motor de autorama com fermento. E todo Fusca tem suas particularidades, as suas manhas. Uma das peças que o meu me pregava era o banco do motorista sair do trilho com qualquer troca de marcha ou acelerada mais brusca. Uma arrancada no sinal e lá ia eu com as pernas pra cima, tendo que me virar pra manter o controle.
Mesmo sendo cheio de macetes, ou talvez por causa deles, todo dono de Fusca tem uma relação de amor e ódio com seu veículo. E eu não era diferente. Afinal era com ele que eu curtia minhas noitadas e minhas namoradas. E era ele que me levava pra Niterói. Um dia, numa bela tarde ensolarada na cidade sorriso, eu pego meu lindo Fusca no estacionamento do Hospital Antonio Pedro, com minha roupa branca e minha maletinha, saio tranquilamente e paro no sinal fechado do cruzamento onde viraria a esquerda para seguir para o Rio. Ao meu lado uma moça igualmente aguarda em seu carro a abertura do sinal. Eu na faixa de dentro, ela por fora. Luz verde, dá-se a largada, entramos juntos na curva. Ela faz a curva mais fechada do que devia e arrasta sua lateral por todo o meu paralama. Cruzamento lotado, guarda municipal, PM, tudo o que você possa imaginar.Paramos do jeito que estávamos. Lata enganchada em lata.
E começa a velha discussão de quem paga o quê. O trânsito fluindo com dificuldade, o PM ainda do outro lado da rua. Naquela “paga, não pago” eu me esquentei. Não vai pagar? Então vai ganhar um prejuízo também. Fui até o carro e peguei um enorme cadeado que, junto com uma corrente de navio atrelada ao banco, faziam a “tranca” do meu carro. Eu sei, o banco saía à toa, mas teoricamente o ladrão não saberia disso.  A intenção: usar o cadeado como soco inglês e estourar o parabrisa do carro da cidadã. Volto e me aproximo do carro dela com o cadeado entre os dedos.
Depois disso as lembranças são vagas e me vêm como flashes. Uma gravata por trás, minhas costas batendo no chão. Havia uma mulher montada em mim, mas não me lembro de ter prazer. Só me lembro da chuva de socos que caía sobre a minha cara e eu tentando desviar com as mãos. De cada cinco socos, dois acertavam meu focinho. O soco nem era forte, mas como a maluca era rápida! Os carros continuam passando, vejo de relance o PM se aproximando e segurando ela pela roupa. “Não bate no doutor, não!”, brada o homem da lei, me salvando do ataque furioso de uma louca com TPM.
Pra encurtar o vexame: voltei pra casa com a lata amassada. A do Fusca e a minha. E claro, tratei logo de inventar uma história sobre como briguei no trânsito com um cara grande, forte e sem coração. Não preciso dizer que, desde então, nunca mais sonhei em chegar as vias de fato com outra mulher.
E o Fusca? Triste fim o do meu companheiro. Cerca de dois anos depois eu o levei com alguns defeitos elétricos até um mecânico. Disse que achava que a bateria do carro não estava boa. Ao que ele respondeu prontamente: “A bateria está ótima... Seu carro que é uma merda!”

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Dividindo pra Multiplicar



                Faz pouco mais de três anos que eu me vi pela primeira vez morando sozinho.  Depois de sair da casa de meus pais para um casamento e daí pra um segundo, finalmente eu estava sozinho pela primeira vez aos 36 anos.  De longe foram os anos mais difíceis da minha vida. E, é claro, os anos onde mais aprendi. Nesse período conheci alguns dos piores sentimentos e sensações que uma pessoa pode ter. Solidão, dor, arrependimento, culpa, fome, auto-piedade tudo isso regado com muitas lágrimas.
               Não, claro que não foi um tempo escuro só de chuvas. Tive momentos excelentes ao lado de pessoas muito especiais. Sem meu filho e a mãe dele, tudo teria sido infinitamente mais doloroso. Mas passou. Demorei a ver uma luz no fim, mas eu a encontrei. Talvez a tempo de consertar muitas coisas. Só o tempo dirá.

                Eu acho que cada um de nós conseguiria fazer uma lista das pessoas que foram importantes em nossas vidas. De pessoas que nos tocaram de alguma forma, que dividiram seu tempo e seu pensamento conosco. Pessoas que, acima de tudo, suportaram nossos defeitos e nossas fraquezas e que, por amor, optaram por enxergar através disso tudo, procurando ver o melhor em nós. E foi justamente por terem se recusado a aceitar essas partes "ruins" de nós como sendo o principal, nos ajudaram a crescer e evoluir como seres humanos.

                Ao longo da minha vida cometi muitos erros. Alguns que me deixam profundamente envergonhado. Desde pequenos comportamentos impróprios, escolhas erradas e até más ações. Sei que andei por caminhos que muitas pessoas consideraram ruins e imperdoáveis. E isso me causa remorso por ter causado sofrimento para algumas dessas pessoas que me amavam. Por outro lado, não saberia expressar o quanto sou grato por tudo o que aprendi nesse caminho e pelo tanto de coisas que ainda tenho que aprender. Sinto que devo pedir desculpas a alguns pela demora nesse aprendizado.

                O Deus em que acredito não pune. Sei que ele nos estimula a perdoar nossas falhas, a não carregar medo e culpa (coisas que pesam e atrapalham nossa caminhada) e, mais que tudo, Ele espera que sempre lutemos e tentemos ser felizes.

                Nesse grupo de pessoas a que me referi, há claramente uma em especial que foi responsável pela maioria das “melhorias” por que passei. Suas contribuições e as mudanças em mim operadas foram profundas em vários aspectos. Sou grato a todas as pessoas que passaram pela minha vida, mas uma delas me comove de forma especial. Vou preservar o nome dela, mas quem me conhece não tem dúvidas sobre quem é essa pessoa. Uma mulher que reúne algumas das melhores características de um ser humano. Dotada de sabedoria, compaixão e amor, manifestados de tal forma que, a custa de muita paciência, me mostrou que meu melhor lado, meus melhores atos e pensamentos não precisavam ficar apenas numa vitrine. Que eles poderiam e deveriam ser usados. Sempre. E mais. Ela também me mostrou, com paciência ainda maior, que nenhum dos meus defeitos era grande ou enraizado o bastante para que não pudessem ser corrigidos. 

                Nesses três anos eu me fazia muitas perguntas. Porque eu perdi tantas coisas? Porque nada dava certo? Porque eu não era feliz em nenhum relacionamento? Porque tantos problemas financeiros e profissionais? Será que eu merecia tudo isso?

                Acho que de todas as lições aprendidas eu destacaria duas como as mais importantes. E queria dividir isso com quem estiver lendo. A primeira é que Deus fala com a gente o tempo todo. Os sinais estão a nossa volta, vinte e quatro horas por dia. Mas não nascemos sabendo decifrar essa linguagem. Ele fala até mesmo através de nossos pensamentos.  O grande segredo é aprender a separar quais pensamentos vêm Dele e quais vêm de outras fontes menos iluminados. Porque essas fontes “escuras” também estão sempre rondando.

                De certo modo há uma regra simples para perceber. Imagine que os que venham Dele sejam os mais elevados, os mais claros e nobres. Li isso recentemente e é tão simples que chega a me aborrecer por não ter entendido antes. O pensamento mais elevado é o que te deixa alegre. O pensamento mais claro é o que é traduz a verdade. E o mais nobre é o que te leva ao amor. Alegria, verdade e amor. Simples. E eficaz.

                O tempo todo Ele fala através disso. E seus mensageiros ainda complementam com sinais. Uma música que toca no rádio, um gesto inesperado de um desconhecido, tudo. E isso me leva a segunda lição aprendida e que foi para mim a maior mudança de atitude.

                Depois de anos orando em tom de pedido, sempre querendo e às vezes até suplicando por algo, eu aprendi que a boa oração é a de agradecimento e gratidão. Por Sua infinita paciência em nos tentar ensinar. Através de nossos pensamentos, através de seus mensageiros e através das pessoas que cruzam nosso caminho. 

                E essa é a razão desse texto existir. Agradecer por cada pedra que me fez tropeçar, agradecer por cada pessoa que impediu que eu caísse (e aquelas que me ajudaram a levantar quando caí), mas principalmente agradecer pelo aprendizado. Sei que ainda estou na metade do caminho dessa vida. Imagina só como vai ser essa segunda parte! E a vontade de escrevê-lo nasceu de uma aula que dei recentemente num local muito especial. Na verdade não foi uma aula. Foi uma catarse. Que será repetida em breve, de tão bem que isso me fez.
                Na sua próxima oração, experimente agradecer. Uma vez li que no céu há dois departamentos para recebimento de orações. Um dos departamentos parece uma central de correios de cidade grande. Centenas de anjos trabalham correndo como loucos para tentar analisar cada uma delas, despachando para o devido setor. Uma loucura. Esse é o departamento dos pedidos. Ao lado há o outro departamento: o das orações de agradecimento. Na verdade é apenas uma sala. No centro dela há uma mesa onde se senta um único anjo. De vez em quando uma oração aparece na caixa de entrada. Dizem que o trabalho dele é simples. Ele não precisa encaminhar para lugar nenhum. Não há caixa de saída. Ele apenas recebe, lê e expressa um imenso e generoso sorriso, que ilumina a sala inteira.

                Pensa nisso. Com carinho.